SER ou NÃO SER e o PROCESSO de INDIVIDUAÇÃO

Ser ou não ser eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias – e, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; só isso. E com o sono – dizem – extinguir. Dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável. Morrer – dormir. Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto vital nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalho que o mérito paciente recebe dos inúteis, podendo, ele próprio, encontrar seu repouso com um simples punhal? Quem aguentaria fardos, gemendo e suando numa vida servil, senão porque o terror de alguma coisa após a morte – o país não descoberto, de cujos confins jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, a fugirmos pra outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós covardes. E assim o matiz natural da decisão se transforma no doentio pálido do pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de ação.

William Shakespeare (in Hamlet)

Ser ou não ser, sempre foi uma questão. Desde que o mundo é mundo, desde os primórdios, o homem busca respostas para sua existência. De onde viemos? Para onde iremos? Qual nosso propósito? Sem respostas, diante do grande mistério da vida, o homem continua em angustia.

Jung afirma que o propósito do ser humano é a Individuação, o tornar-se si-mesmo em sua plenitude. Ser luz e ser sombra, ser inteiro. Ser, é buscar, com colaboração ativa do ego consciente, alcançar a consciência unitiva – a unidade com todas as coisas. Não ser, é não aceitar dirigir-se, conscientemente, em busca do Self – imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem; o numinoso.

Conforme Jung, a consciência emerge do inconsciente, emana de profundezas desconhecidas, ou seja, inicialmente o ego encontra-se fundido ao Self. Então, o ego passa a separar e descriminar informações vindas do inconsciente, tentando traduzi-las em possibilidades de experiências para a consciência. Ganha a ilusão de que está no comando da personalidade. Cria personas como proteção, e meio de relação, e nega as sombras. Afasta assim, o propósito maior da vida, que é atingir a meta do si-mesmo.  Teme sua aniquilação. Encara, equivocadamente, o processo de individuação como uma espécie de morte, pois deixa de ser o centro. Compreende sua finitude e sua incompletude e é nessa hora que ele pode se esquivar do processo que o levará ao encontro como a totalidade.

O objetivo do processo de individuação não é aniquilar de vez as personas, até porque são necessárias para o convívio em sociedade, mas percebê-las, flexíveis, mantendo a consciência do seu uso, das suas atuações, equilibrando com isto o mundo externo e interno do homem. É o processo de desenvolvimento da totalidade que nos leva ao autoconhecimento, não tendo como meta a perfeição, mas sim, o reconhecimento das antinomias e das sombras – aspectos mais repugnantes do ser, aqueles que não são aceitos e por isso relegados ao inconsciente pessoal. Portanto, a integração das polaridades oferece maior liberdade nas escolhas, pois quanto mais conscientes de nós mesmos, mais conhecedores do nosso inconsciente, e mais em comunhão com os ideais de mundo estaremos.

Então, por que é tão difícil ser? Por que tantas pessoas perdidas dos seus propósitos? Por que é tão doloroso enfrentar os obstáculos ao invés de transportá-los? Melhor dormir e anestesiar as dores? Melhor morrer e desistir de ser? Melhor não ser?

Ser único pede uma relação profunda consigo mesmo. Quanto mais consciência conquistamos, mais solitude e menos distração teremos. A solidão não alimenta o olhar do outro, mas também não alimenta o olhar para si-mesmo. Viver sem julgamento do outro, sem o desejo em atender o outro, possibilita, transitoriamente, a ilusão de ser você mesmo, o que até um certo ponto de vista é bom. Livre de todas as máscaras sociais. Livre dos invólucros e roupagens das personas. Livre em pensamento, palavra e ação. Abraçando todos os “eus” que nos habitam na consciência e, também, na sombra do inconsciente. Porém, ficar contínua e exclusivamente neste isolamento, também é muito ruim. Ou seja, precisamos aprender a aceitar e vivenciar nossa solitude, assim como interagir, trocar com o entorno relacional. Viver apenas para atender a persona social é tão patológico quanto viver solitário, sem trocas e sem personas.

A decisão de ser ou não ser é tomada pela indecisão. Abandonamos o ser quando começamos a disfarçar as dores da alma. Assumimos o não ser por covardia. É necessário coragem para retirar o véu da ilusão de controle do ego. É preciso mergulhar no escuro e desconhecido inconsciente e resgatar de lá nossa outra parte, aquela que escondemos do mundo e de nós mesmos. Esquecer que o importante para o processo de individuação é quem somos em essência e não o que aparentamos ser. Mas, essa descida ao inconsciente causa medo ao revelar os segredos que a consciência desconhece, causa a sensação do descontrole perante a vida. Então, o ego reluta em deixar velhas crenças, mudar comportamentos e hábitos, como se algo fosse morrer, por isso prefere continuar na ilusão do sofrimento.

E se a vida é um constante sofrimento, a morte parece ser a solução. Porém, a incerteza da morte supera os sofrimentos da vida. Da mesma forma, o ego nega o confronto com o Self, pois há um morrer para os instintos egoístas e um nascer para a espiritualidade. Essa sensação de entrega total, onde o ego se curva à vontade do Self, é tão apavorante quanto a morte.

Dormir é morrer um pouco a cada dia e não temos controle sobre isso, talvez por isso, nos botamos em fuga de nós mesmos, da nossa totalidade. Negar o sono é negar consequentemente os sonhos. Negar a morte é negar consequentemente a vida. Estamos em fuga do autoconhecimento, da expansão da consciência. Muitas vezes com medo, por não entendermos que saber a finalidade dos problemas não é a solução somente, e sim, uma ponte para o crescimento. Preferimos negar as sombras, pois encará-las e integrá-las, exige coragem. A consciência, como diz Shakespeare, nos torna covardes. Será o medo do desconhecido tão maior e mais aterrorizante do que todas as dores conscientes?

Escolher viver na dualidade, não integrando nossas partes, ficamos partidos e doentes de nós mesmos, pois o Self não aceita a unilateralidade na vida. Sua meta é a união dos opostos, por isso, continua enviando mensagens através dos sonhos, sintomas, complexos, expressões simbólicas, na tentativa de despertar o ego para o encontro com a totalidade.

Os sonhos, como diz Shakespeare, estão livres do invólucro mortal. Para Jung, os sonhos nos colocam em contato direto com a fonte, o Self, e por isso nos conduzem no processo de individuação. Regulam a psique quando trazem imagens arquetípicas e associações de pensamentos que se criam espontaneamente na nossa intenção consciente, e servem de porta-voz do inconsciente. Jung sabia da importância dos sonhos para a compreensão dos aspectos inconscientes. Ele se utilizou dos sonhos para conduzi-lo ao processo de individuação durante sua vida. A análise profunda dos seus próprios sonhos possibilitou o mergulho no seu inconsciente e o guiou para realização do seu si-mesmo. Segundo Jung, temos vários “eus” dentro de nós que não conhecemos e que nos falam através dos sonhos.

Entretanto, enquanto houver dúvida entre o ser e o não ser, há certeza da bipolaridade em nós. E continuaremos morrendo para nós mesmos e, consequentemente, para os outros. É necessário acordarmos nossa consciência solitária. Quem seríamos se estivéssemos sozinhos no mundo? Estamos dispostos a pagar o preço de sermos quem realmente somos? É um risco e um desafio enorme, e por isso, talvez seja tão difícil sair da normose e simplesmente ser.

O processo de individuação, a realização do si-mesmo, permite a aceitação por parte do ego das manifestações inconscientes. É preciso parar de brigar com o que não podemos controlar e abraçar a vida com todo seu aprendizado, dores e prazeres. É preciso restabelecer o sagrado em nós. Um despertar espiritual, uma reconexão com o numinoso, buscando nossa inteireza. Reconhecendo o caminho da totalidade, o ego já não resiste tanto as transformações decorrentes da expansão da consciência como antes, e se rende ao Self.

Portanto, alienar-se da vida, encontrar o repouso em um punhal, leva a renúncia de si-mesmo, leva a fragmentação do ser, leva ao NÃO SER. Render-se ao Self é renunciar ao controle, ao poder das ilusões do ego. Nos leva ao autoconhecimento, expansão de consciência, e transformação. Nos leva ao SER. Assim, todas as mazelas do mundo, todas as inquietudes, incompreensões, insultos, afrontas, injustiças, …, todas as dores da alma, deixam de ser só dores, e se transformam em experiências corajosas que nos conduzem em direção ao Self.

 

William Shakespeare, o maior escritor da língua inglesa de todos os tempos, escreveu Hamlet entre 1599 e 1601. A peça traz pela primeira vez o poder do eu, do tomar decisões, do drama da consciência – vida na loucura real e na loucura fingida, da dualidade do SER ou NÃO SER. O nascimento do mal consciente.

 

FLÁVIA MELAS AROUCA MARINHO

Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Membro Analista em formação pelo IJEP. Consultório em Ipanema – Rio de Janeiro.

Contato: flavia.melas@gmail.com  (21) 98898-9774

 

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl G. A Natureza da Psique – OC 8/2. 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

JUNG, Carl G. Memórias Sonhos e Reflexões. 30ª ed. RJ: Nova Fronteira, 2016.

Shakespeare, W. Hamlet. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2011.

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Sobre flaviamelas

Psicoterapeuta Junguiana - Mestra em Reiki, Practitioner Florais de Bach, Apometria Quântica, ThetaHealing e outros.
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